segunda-feira, 29 de abril de 2013

Capítulo Paralelo 2 :: "Eu, Meus Sapatos e Os Namorados"






Lucas se livrando dos calos do Sapato Perfeito.







O carro estacionou em uma das poucas vagas desocupadas no estacionamento da Universidade. Lucas deu um suspiro profundo, controlando os nervos, olhando fixamente para o painel, juntando toda a coragem que existia em cada molécula do seu corpo. Karla o olhava fixamente, esperando ansiosa por algum movimento.
- Quer mesmo fazer isso? – perguntou ela apreensiva.
- Preciso... ou vou morrer engasgado e somar mais essa frustração dentro de mim. – disse ele olhando fundo nos olhos dela – Acredite. É mais por mim do que por ele.
Então veio mais um suspiro, e os dois saíram do carro decididos, Lucas à frente.
Chegaram no corredor à tempo, tudo havia sido pensado para que pegassem exatamente o fim da aula. Alguns minutos depois, em que Lucas repassava mentalmente com calma tudo que tinha para dizer. Karla ao lado emanando boas vibrações. Por um momento ela o olhou e sentiu uma grande admiração. Queria ela ser assim decidida em pôr para fora algo de sentimental que estava lhe sufocando, nesse momento ela se lembrou do por que se sentia tão feliz por ter um amigo como ele.
Quando os alunos começaram a sair, Lucas deu um pulo e foi de contra a correnteza de gente e penetrou na sala, e ficou parado ao lado da porta. Lucas avistou André arrumando as coisas na bolsa quando seus olhos se encontraram, e André se sentiu extremamente surpreso e envergonhado. Parecia que sabia o que estava por vir. Lucas apenas esboçou um sorriso sem graça no canto da boca, que fez André relaxar os ombros e parar de arrumar as coisas, e simplesmente sentou esperando que todos saíssem.
Quando a porta se fechou com o ultimo aluno, Karla se sentou do lado de fora, tentando quase não respirar para ouvir tudo que se passava. Então Lucas se aproximou e seu coração deu um pulo, e veio toda a emoção à tona, todo o sentimento que o moveu àquele momento. André puxou o ar para começar a falar e Lucas o interrompeu imediatamente.
- Não fale! Não vim aqui atrás de explicações ou desculpas. Só quero que me escute.
- Mas eu não quis te magoar.. apenas..
- Escuta, cara. Só isso. – e encheu os pulmões, e junto com o ar que entrava, as palavras saíam – Primeiramente eu vim dizer o quanto estou furioso com você! Furioso por toda a expectativa que você depositou em mim. Se tudo o que você disse, você não pretendia seguir, que guardasse pra você. É isso que mais me deixou puto! Você simplesmente me enganou. Não sei se foi proposital, ou não, mas se você falou algo, eu acabei acreditando em você.
André mordeu os lábios desconsertado. E antes que pudesse rebater, Lucas prosseguiu.
- Fora isso, você não me deve explicações do porquê de repente mudou e me deixou de lado, foi direito seu e você não tinha obrigação comigo, afinal a gente não tinha nada sério. Do mais, na verdade, eu queria te agradecer. – André levantou as sobrancelhas – Agradecer por me fazer sentir coisas que eu não sentia já fazia um tempo, me fazendo lembrar que eu ainda sou aquela pessoa capaz de sentir além de uma simples transa ou coisa do tipo. Me fez lembrar que esse coração ainda pode bater por alguém, e que eu ainda tenho aquela coisa de adolescente apaixonada no primeiro encontro.
André corou.
- Você só foi mais um. Mais um que veio, depositou alguma coisa em mim e foi embora. Como muitos outros já fizeram. Quanto a isso eu já estou acostumado, e sei que isso passa mais rápido que cólica menstrual. Até eu encontrar o próximo por quem direcionar minha atenção. Não se preocupe que eu não vou ficar sofrendo ou ficar remoendo, me lamentando do que poderia ter acontecido ou se pudesse ter dado certo, porque já cansei de fazer isso, não é nenhuma novidade. Eu sei que passa. Vou sentir falta, pelo menos por enquanto, afinal foi algo que eu curti e mexeu comigo. Mas tranquilo, vou adicionar às experiências boas da minha vida. Afinal de contas você me fez bem, mesmo que tenha sido por um breve momento.
André deu um suspiro e o olhou com serenidade, e por um momento Lucas já parecia se sentir vazio, como se todo o sentimento havia sido jogado no chão e não passava de um suor escorrido.
- Você simplesmente estrou num ciclo vicioso de sofrer por alguém e em seguida você mesmo fazer isso com outra pessoa. Tipo pondo em prática algo que seu inconsciente aprendeu pela dor. Talvez seja uma forma de defesa ou sei lá. Mas isso vai se repetir até você cansar, porque essa coisa de só querer quem não te quer é um negócio que não para de se repetir. – André franziu a testa num sinal de negação, mas algo em seu olhar parecia ter entendido – Te desejo muita sorte no próximo enrolo e que você esteja levando alguma coisa disso tudo.
E terminando a frase, virou o calcanhar e deu as costas em direção à porta. Lucas se levantou num pulo e exclamou.
- Hey, você vem, fala o que quer e não vai me deixar rebater?
- Não! Você teve seu direito de sumir sem me dar satisfação, engraçado que foi exatamente isso que fizeram com você... – e deu um riso irônico – Você teve sua chance de se explicar ou sei lá, falar alguma coisa. Agora já passou. – e dando de ombros, voltou a caminho da porta.
- Mas cara, deixa eu te dizer...
E o deixou falando sozinho. Assim que Lucas saiu da sala, se deparou com Karla gesticulando para um grupo de alunos que esperavam para entrar na sala.
 - É sério, gente! A moça está limpando lá dentro. A menina vomitou feio, tá um cheiro horrível... - e se dando conta que ele a olhava com um ar muito hilário – Pronto. Acho que já tá limpo. – E deu as costas pro grupo, batendo cabelo.
Os dois cruzaram os braços e saíram em sincronia. André saiu da sala afobado chamando pelo Lucas, que começou a sussurrar de olhos fechados.
- Não venha, não venha, me poupe desse desprezo...
E pareceu que havia escutado. André parou no meio do corredor batendo nas pernas.
Karla assistia com muita animação, sem parar de andar decididamente ao lado dele.
- Amo você, sabia?
- Ai! Eu também (me amo)! HA-HA!
E os dois saíram, prontos para o próximo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Gostei. Bastante real e gostei da atitude do Lucas. Todo mundo sofreu ou vai sofrer por amor, por uma desilusão. Não acho correto nem honesto descarregar em uma outra pessoa o mal que alguém lhe fez anteriormente. Digo isso porque vivi isso. A gente quer proteger a outra pessoa, curar as dores dela, mas não ajuda muito quando ela acha que tudo o que ela sofreu vai se repetir e, por isso, acaba se antecipando e descontando na gente. Mas é como o Lucas disse ao André: isto vai se repetir até o outro cansar. Enfim, sejamos sinceros com os outros e com a gente mesmo; e bola pra frente que a vida continua e há muito ar para respirar.

Anônimo disse...

Gostei do texto e das atitudes do Lucas. Ninguém merece ser punido pelas dores que um terceiro causou à pessoa por quem você está apaixonado ou ama. Gostei ainda mais porque me identifiquei com seu texto. Ninguém é obrigado a retribuir os sentimentos de ninguém na mesma medida porque não temos um botão para aumentar ou diminuir a intensidade dos nossos sentimentos, por isso mesmo é legal quando a outra parte tem a sensibilidade de ser sincera com você em relação ao que ela quer e espera. Não gosto de me sufocar com as coisas que eu tenho pra falar. Quer me achar louco, que ache! Mais louco é quem projeta nos outros as frustrações dos amores passados em uma pessoa que não tem nada a ver! Vivi essa experiência de ser encarado como alguém iria, mais cedo ou mais tarde, causar toda a dor que meu ex sofreu nos relacionamentos passados. É difícil você tentar curar um coração que, por causa do medo, não permite se livrar dos medos. Como o Lucas disse ao André, ele vai continuar assim até se cansar; um dia ele aprende. E que o Lucas seja feliz. A vida continua. Cedo ou tarde a gente esbarra em alguém que nos enxergue e que nos ame sem medo, que nos admire e que a viva a vida com um brilho no olhar.

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