terça-feira, 14 de junho de 2011

Capítulo 4 :: "Eu, Meus Sapatos e os Namorados"




Cap. 4
Orquídeas.







Todos na sala pareciam meio tensos, o único perdido era Bruno que não sabia de nada e mais parecia um aluno novato no primeiro dia de aula.
– Onde você estava? – perguntou Lucas a ele a eu quis dar um soco em seu nariz pra deixar de ser metido.
– Comprar pão – respondeu Bruno sem jeito.
– E demorou esse tempo todo...?
– Vamos parar com essa palhaçada, ok? – interrompi o questionário – Estamos lidando com um caso um tanto mais sério aqui.
E Isabela entrou na sala.
– Vou tirar.
Todos pararam e se olharam por uns segundos e quando pensamos em questionar, Isa disparou.
– Não posso criar essa criança. Não tenho cabeça nem para criar um gato, nem para cuidar das minhas bolsas – isso era papo furado porque das bolsas ela cuidava perfeitamente – quanto mais de uma criança!
– Que tal você contar pro Vini? – sugeriu Lucas.
– Ah claro, ele vai querer ser pai na flor da idade.
– Se a flor da idade dele pôde te comer sem camisinha, que a flor da idade dele se responsabilize pelo resultado!
– Tenho que concordar com Lucas – falei.
– Eu também – disse Bruno. Todos olharam pra ele com uma expressão “o que diabos você tem haver?”
  Quando Isabela pensou em questionar, colocou a mão na boca e correu para o banheiro.
– Ela não vai parar de tentar abortar pela boca? Meu Jesus... – comentou Lucas.
Depois de pensarmos em todas as possibilidades mais prováveis, decidimos que contar para o Vinicius era o primeiro passo. Afinal ele era o pai e tinha o direito de saber. Isabela parecia atordoada, mas eu já via seu balãozinho se formando e surgindo imagens de uma Isa vestindo um avental por cima de um vestido Dior azul claro, carregando um garotinho branquinho no colo, enquanto Vinicius com seu paletó Armani vinha lhe dar um beijo antes de sair para o trabalho. E acho que Lucas teve a mesma visão e começou a abanar o ar em cima da cabeça de Isa e começou a falar da realidade, ela parecia não dar ouvidos. Bruno permanecia calado, e eu lembrei da sensação anestésica que senti quando ele entrou pela porta com o saco de pães que nem comemos. Ele parecia estar prestando toda a atenção na história do Lucas de como era curar as estrias pós-parto e lavar 37, ele disse 37, mamadeiras sujas de leite e mingau enquanto a criança berrava com mais fome, ou das golfadas nos ombros dos Vera Wang que ela tinha trabalhado tanto para conquistar. Aquele assunto me deixou perturbada.
Quando o Lucas teve de ir pra casa porque perder o almoço com sua mãe podia resultar em gritos de uma mulher carente, Isabela conseguiu dormir depois de tomar uma vitamina para repor o que perdeu em vômitos, e eu pude conversar com Bruno em paz.
– Pensei que você tinha ido embora – comecei a falar enquanto pegava biscoitos no armário. Alguém podia me avisar que já era hora do almoço?
– Imaginei quando vi sua expressão na porta. Desculpe, Karol. Meu celular descarregou e eu não tive como ligar.
De repente eu não me sentia mais usada. Toda aquela história de gravidez e o fato de ele não ter exatamente ido embora tirou toda a emoção de ter sido largada. Mais uma vez eu preferia o joguinho de ter que correr atrás de um homem, mas ficava difícil quando ele volta trazendo pães. O que mais me assustava era a forma de como ele olhava para mim, com carinho e atenção. Acho que eu preferia ter sido largada, assim podia tecer todos os palavrões ao seu respeito e me gabar do sexo bem feito e acordar sozinha como nos filmes de mulheres bem sucedidas de vida sexual ativa. Então Isabela acordou e me implorou por um Mousse Frozen, a Sorveteria na avenida principal que adorávamos ir.
– Começou a frescura dos desejos de grávida.
– Melhor não negar! Se não vou te rogar um terçol! – gritou ela da sala.
Passamos parte do caminho calados. Então ele começou com os assuntos diversos e eu louca para dizer “não quero saber disso”. Na verdade eu realmente não queria mais saber de nada. Muito menos dele. Mas enquanto ele falava e andava, reparei nos músculos de seu maxilar, de como se movimentavam e eu me senti atraída. Eu conhecia bem aquela sensação, mas era inevitável. Enquanto movia os braços no ritmo da caminhada, seus tríceps se moviam em sincronia, e eu quase conseguia ver o desenho do seu tórax e flashes da noite anterior começaram a surgir. Antes de eu me senti excitada, chegamos à Sorveteria.
Nos aproximamos do balcão e pedimos duas tortas e três mousses.
– Boa tarde, Karla. Como você se sente hoje? – perguntou Pedro, ele trabalhava como balconista da Mousse Frozen desde que eu comecei a virar a tarde tomando cremes de cereja com Martini na companhia de Paula – Ontem vocês saíram apoiados uns nos outros – risos.
– Ah, é mesmo! Obrigada por chamar um táxi – então lembrei de quando eu caí do balcão e ele disse que era melhor eu voltar pra casa.
– Nada. Acho que ontem foi o dia que vocês mais usaram o balcão – e demos risadas. Enquanto isso, Bruno parecia hipnotizado pelos peixes coloridos de um aquário na parede. Imaginei que ele tivesse tendo um momento de autismo – Como está o Lucas?
– Bem. Me fez o favor de me deixar na porta de casa – uma pausa – já que ele mora em frente.
– Seu namorado parece ter gostado dos peixes.
Me senti com vergonha alheia.
– Ele não é meu namorado – respondi no reflexo. Lhes dei um sorriso e peguei a sacola com os pedidos. Nos despedimos e eu me senti arrependida por ter bancado a stripper no balcão. Imagina quantos pretendentes melhores eu perdi.
Quando voltamos para casa, Isabela estava babando no sofá, eu não sabia de onde havia saído tanto sono, então senti um puxão pela cintura e uma rodopiada me fez ficar de frente para o Bruno, que me deu um beijo de arrepiar as pernas. Eu mal conseguia me mexer, ele matinha o controle de tudo, com um braço percorrendo meu corpo e o outro segurando minha nuca, e meu coração começou a bater forte. Ele podia ser o cara dos assuntos diversos ou autista por peixes, mas também era o cara dos múltiplos orgasmos, e isso eu tinha que levar em conta. O mais engraçado é que transamos no chão da cozinha mesmo, na pia e na mesa, enquanto isso, a Isabela mal se mexia.
Enquanto curtíamos o pós orgasmo, meu celular tocou. Era Lucas.
Gata, vim na sacada cuspir e adivinha quem acabou de entrar no seu prédio? – pausa misteriosa – O George.
Meu coração deu um salto. George sumiu por pelo menos três semanas e não deu nenhum sinal de vida. Ficamos por dois maravilhosos dois meses e ter que lidar com sua ausência repentina foi uma tortura, e quando eu finalmente consegui tirar o cheiro dele da minha cama, ele aparece do nada?
A campainha tocou e eu olhei para o Bruno sentado no chão da cozinha pelado. Aquilo era uma nova ereção?
– Quem é?
– Não faço ideia – menti.
Sem pensar muito, fui abrir a porta e lá estava o ele, com orquídeas nas mãos, minhas flores favoritas.
– Desculpe.
O empurrei para o hall, fechando a porta atrás de mim.
– O que diabos você está fazendo na minha porta? – perguntei indignada, mas balançada com seu gesto.
– Estou pedindo desculpas. Não consegui tirar você da minha cabeça e... Por que você está de toalha e... suada?
Minha mente precisava agir mais rápido que minha boca.
– E-estava entrando no banho. Onde você se meteu essas semanas?
– Resolvendo uns problemas na minha cidade...
– E lá não se pode atender telefone? Muito menos mandar mensagem? – me dei conta que estava demorando demais e o Bruno podia ficar curioso e aparecer a qualquer momento.
– Não dava. Eu, eu não conseguia te ligar de volta. Já pedi desculpas. Vamos resolver isso com um amor gostoso... – e foi logo me pegando pela cintura.
– Que mané amor gostoso! – e era mesmo... mas o empurrei. Eu tinha que mandar ele dar o fora logo, se não eu ia acabar ficando sem nenhum pássaro na mão – Me dê isso e vai embora – arranquei o buquê de suas mãos. Eu era realmente apaixonada por aquelas orquídeas – Você passou três semanas sumido. Três! E espera que eu te aceite volta em um dia? Vá se catar! – era pura estratégia.
Eu aprendi a lidar com ele. Ele adorava levar pé na bunda e ser rejeitado, quando eu fazia isso, principalmente negava sexo, ele ficava louco e vinha correndo atrás de mim.
– Não faz desse jeito, gatinha. Você sabe que eu te adoro.
– Adora minha bunda...
– Também.
– ...vaza daqui! – e fui empurrando-o escada a baixo. Admito que era uma dor tremenda dizer não para aqueles par de braços e aquela bunda durinha, mas eu precisava, se não, ele não iria ficar atrás de mim.
– Vou te ligar.
– Não vou esperar – respondi.
Quando ele sumiu escada a baixo, Bruno abriu a porta.
– Quem era?
– O entregador – dei um sorriso torto enquanto ele olhava para as orquídeas  – Meu irmão mandou pra Isabela. Ele ficou tocado com a situação dela – e balancei o buquê.
Uma ova. Se ele conhecesse meu irmão teria se tocado na hora. Flores não era seu estilo. No mínimo ele iria mandar um alargador de vagina dizendo que ajudaria na hora do parto. Bem mais a cara dele.
Coloquei os lírios num vaso e tentei agir com naturalidade. Eu simplesmente adorava essa vida dupla. Enquanto eu não estivesse apaixonada, podia bancar a Paula, porque esse era exatamente o tipo de coisa que ela faria. Meu celular tocou de novo.
O bofe me viu na sacada e me mandou um beijo! – falou Lucas que certamente tentou acompanhar o movimento na saída do meu prédio pra ligar no momento certo – Fiz cara de cú, mas juro que to me abanando até agora. Onde você arranja esse faro pra boy gostoso, gata?
– Fiz uma mandinga, amigo. Ou você acha que tudo está no poder dos meus seios?
Droga! Só porque eu estava pensando em colocar silicone – claro que era mentira.
– Depois te conto o que ele me disse. O Bruno está entrando no quarto e alguma coisa acontece ali em baixo...
Bixa, a senhora deu sedativo à Isabela?
– Haha... Não. Mas ela me disse que passou a noite em claro ansiosa sobre o que fazer. Vou desligar, ele tá balançando o...
Vai te catar, mulher. Eu to na seca à três semanas!
E desligamos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Acho que esse é o último capítulo, né? (se considerar o marcador da sidebar, acho que sim). Estou gostando bastante e querendo saber se vai rolar algum romance da Karla com o Bruno. Bem... espero que você continue os capítulos, mesmo que você não publique mais nada há quase três anos; ou que me conte os capítulos seguintes pessoalmente...

P

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