sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Capítulo 3 :: "Eu, Meus Sapatos e os Namorados"









O Teste.





Acordei com meu celular tocando desesperadamente, e cheia de dor de cabeça. Era minha mãe.
Minha filha, como você está? – eu deveria dizer nua e dolorida, mas um “estou bem” era suficiente – Estou ligando pra dizer que te amo. E pra lhe chamar pra almoçar conosco essa semana. Seu avô está com saudade de todos e quer nos fazer uma surpresa.
Estremeci. Uma surpresa de meu avô era sempre um momento tenso. Há dois meses ele quis nos fazer uma surpresa e realmente tivemos uma.
Meu avô, um velho de 73 anos, charmoso pra idade dele, mas com leves momentos de caduquice, quis preparar um jantar no aniversário dele e queria uma coisa simples. A mesa estava completa, com meu pai conversando com o cunhado, ao lado da esposa que tentava colocar a comida no meio do prato da minha prima mais nova, enquanto os outros dois mais velhos comiam loucamente porque o videogame não podia esperar, e minha mãe mandava meu irmão desligar o celular para comer enquanto servia vagem para meu avô que parecia sereno. No meio da refeição, foi entregue um bolo artificial de dois metros e deixado no meio da sala, todos ficaram surpresos e buscavam um responsável. Parecia um presente diferente, mas ninguém sabia do que se tratava. De repente, uma mulher de biquíni e chapeuzinhos de aniversário no lugar do sutiã surgiu de dentro do bolo gigante. Minha mãe soltou um grito e correu para tapar os olhos de Rafael, meu irmão, detalhe, de 22 anos, e minha mãe se negava a acreditar que ele tinha um pênis desenvolvido e que funcionava com todas as meninas da rua. Foi um corre-corre e meu avô era o único que estava curtindo. Meus primos de 6, 10 e 12 anos dançavam freneticamente enquanto a mais nova gritava “Eu quero ter os peitos dela, papai!” pro meu tio que apanhava da esposa. Quando conseguimos segurar meu avô e pôr a dançarina devidamente vestida para fora de casa com seu bolo, descobrimos que tudo foi armação dele mesmo, que queria se sentir jovem novamente. Meu irmão só conseguiu perguntar pra ele se havia funcionado alguma coisa antes de levar com o pano de prato na cabeça dado por mamãe.
– Pode ser, mãe. Mas me avise com antecedência pra eu avisar no trabalho. Agora, eu preciso desligar.
Tudo bem, minha filha. Se cuide e fique com Deus.
Desliguei e me dei conta do meu estado deplorável. Deitada no meio da sala, envolta por um cobertor que eu não sabia de onde havia surgido. Descabelada era pouco, e o pior de tudo, sozinha.
Dei uma rápida olhada pelo apartamento e não vi ninguém e me certifiquei de todas as coisas de valor estarem no seu devido lugar. De repente eu me senti mal. Ele havia ido embora. Mesmo. Só consegui tomar um banho, limpar a bagunça e ligar pro Lucas.
Como assim, gata? Ele sumiu? Procura alguma coisa que ele possa ter deixado aí.
– Não, não. Ele foi embora mesmo. E a culpa é toda sua. Quem mandou você empurra-lo pro meu apartamento? Eu tinha me contentado com um beijo no portão.
Ih... A trepada foi uó.
– Não. Pior, foi maravilhosa. Eu gozei incontáveis vezes... EU TE ODEIO!
Ow, gata. Já tentou ligar pra ele?
– Claro! Dá desligado. Tá, chega disso. Vou comer alguma coisa.
E desliguei amargurada. Mas o que eu esperava? Sexo no primeiro encontro se resume a isso. Sexo. Mesmo assim, eu não tinha certeza se estava afim de namorar o cara dos assuntos diversos. Eu preferia assuntos específicos. De preferência, específicos a mim. Mas tudo bem, iria anotar o nome dele na lista de ficantes e seguir com minha vida. E quando eu me dei conta de que não sabia o segundo muito menos o terceiro nome dele, ele se resumiu a “Bruno Múltiplos Orgasmos” no meio dos outros. A campainha tocou e meu coração deu um disparo, quando abri a porta com toda a esperança do mundo, Isabela surgiu como uma fera.
– Eu disse!!! Que se não seguíssemos o Decreto isso iria acontecer!
– Isa, foi só uma transa.
– Inclusive pra você? – ela parecia em dúvida.
– Inclusive pra mim.
– Meu ovo! De que foi a culpa?
– De quem foi a culpa, você quer dizer.
De que. Aposto que foi da vodka. – e fez uma careta. Ela me conhecia mesmo. E foi se jogando no sofá. – Foi aqui que tudo aconteceu? Adoro.
– O que você está fazendo aqui? Pelo visto o telefonema do Lucas foi rápido, hein. Onde está aquela rapariga?
– Com medo de você. Ele me mandou um spotted¹ e eu voei pra cá. Anda, quero saber detalhes. Tamanho, intensidade, quantidade e volume. Vamos. Conta mais.
Confesso que aquilo me divertiu e me fez esquecer a parte ruim.

Enquanto eu destrinchava todos os detalhes sórdidos da noite passada, Isabela fazia caras e bocas preocupadas, e eu percebi que as caras não acompanhavam minha história. E quando eu estava na parte do segundo orgasmo, ela pareceu enjoada.
– Tá tudo bem, Isa?
Unhum. – Aquilo pareceu mais um grunhido. E quando eu torci a boca como quem não engole essa, ela desabou em choro. Assim. De repente.
– O que foi isso, meu Brasil?
E quando os soluços pareciam incansáveis, a bomba caiu no meu colo.
– Estou grávida.
O que? Minha mandíbula caiu, mas eu não consegui pronunciar nenhum som.
– Na verdade eu não sei – pausa para os soluços – Eu só estou sentindo os sintomas. Tipo, seios doendo, enjoo, tontura, e muita, muita fome.
– Amiga, vai vê você só está com vermes.
Ela me olhou torta com os olhos cheios de lágrimas.
Não pensei duas vezes, abri o celular e comecei a digitar uma mensagem pro Lucas:

 “Deixa de viadagem e corre pra cá. Traz um teste de gravidez. Aqui você vai saber”

Dois segundos depois ele respondeu:

“Mas já? O babadinho do Bruno é rápido mesmo.”

Decidi não responder.
Enquanto isso Isabela me contava como aquilo passou pela cabeça dela.
– Foi uma vezinha só. Eu estava com o Vinicius lá em casa e estávamos sem camisinha, então decidimos nada de penetração. Só que no meio do rala e rola, ele entrou, e eu deixei porque estava muito excitada.
– Ai amiga, mas nem pra ele ejacular fora.
– Ele ejaculou. Mas acho que ele gozou mais de uma vez...
– Nossa! O negócio foi bom, hein?
– Pois é. E pra constatar estou atrasada há um mês.
– E você não contou nada pra gente?
– E eu ia imaginar que uma vezinha a porcaria do esperma dele ia achar meu óvulo!
– Hum... Eles sempre acham o que não devem.
A campainha tocou e eu dei um pulo. Lucas entrou correndo com uma garrafa de Martini nas mãos.
– Onde você vai com essa garrafa? – perguntei indignada.
– Ora pra onde? Se quem quiser que não esteja grávida, a gente pode beber. Não é? – perguntou Lucas.
– São dez da manhã, Lucas!
Isabela colocou as mãos na boca e correu pra pia da cozinha.
– Que porra é essa? E eu pensando que você estava de zoação comigo...
– Mas você trouxe o teste, não trouxe? – e ele me entregou uma sacola de farmácia.
Depois que Isabela parou de colocar todos os bofes pra fora, sentamos e esperamos ela relaxar pra poder o xixi descer, e fizemos o teste. Enquanto não dava resultado, Lucas parecia mais nervoso do que nós duas juntas.
– Como vamos chamá-lo? – perguntou ele com uma taça cheia de Martine na mão andando de um lado para o outro.
– Chamar quem? Você tá maluco? – indignou-se Isa – Você acha estou preparada pra ser mãe?
Uma pausa silenciosa.
– Mas, se você estiver mesmo grávida, e seu filho for gay? – perguntou Lucas.
– Tá de sacanagem comigo. – Isa parecia enjoada de novo.
– Claro que não! Se é assim que você encara o fato de ter um filho gay...
– Para de falar besteiras, Lucas. – Isa parecia mais calma. Todos sabíamos que esse era um assunto delicado quando se tratava de Lucas, quando no momento que ele colocava os pés dentro de casa, assumia uma outra postura com sua mãe. – Você sabe que eu não me importo com o fato dele ser gay ou não, isso não faz diferença. Por tanto que ele seja decente, estude e tenha um grande apartamento de frente para o mar e que me compre umas três bolsas por semana pra eu não enjoar de nenhuma delas...
– Vocês podem voltar aqui! Alô! – fiz sinal com os braços pra ver se os dois voltavam pra realidade. – A gente está falando de ter um bebê! Um filho! Alguém se dá conta disso?
– Meu Deus, varizes. Estrias. Como proceder? – perguntou Isabela com cara de desespero.
– Monange, meu amor. Por que você acha que a Xuxa parece mais nova que a própria filha? – Lucas respondeu dando uma golada funda do Martini, esvaziando a taça. – Alguém quer?
E quando eu havia desistido de pôr os dois na realidade, o teste deu resultado e uma linha rosa apareceu.
– O que isso quer dizer? – perguntou Isabela.
– Quer dizer que vamos começar a pensar nos nomes. – disse Lucas.
A campainha tocou e eu me senti atordoada, levantei sem forças nas pernas e Isabela ficou no chão do banheiro com o teste de gravidez positivo nas mãos, e Lucas segurava uma taça vazia.
Quando abri a porta, minha vista parecia turva, e quando entraram em foco, reconheci quem estava parado diante de mim esboçando um sorriso e segurando uma sacola de padaria. Bruno.
– Me perdi na vizinhança, mas acabei encontrando o caminho de volta. Está tudo bem?





____________
¹Bordão do seriado americano Gossip Girl; quer dizer: "Flagra"

4 comentários:

Rafaele disse...

Tô AMANDO esse babado todo gato! mas já disse neh, te odeio por demorar tanto com o próximo capítulo!! assim tu mata a genteee!!! kkkk Bjos, parabens, vai ser TUDOOO!!!

Raony disse...

acho que eu perdi algo!
isso é uma novela?
quando começa?
bjs

Magnum disse...

Fikei surpreso com o final.. *-* Adorei... Esperando pelos próximos capítulos.. ;D

Anônimo disse...

Comecei a ler o seu romance e estou gostando bastante. Histórias bem construídas, bem divertidas (como os comentários espirituosos do Lucas e da parte que a Xuxa parece mais nova que a filha, rs). Lembra um pouco Sex and the City.

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